A incrível história da professora brasileira do MIT que largou tudo para dançar tango.
21/10/13, Gluck Project.
Trechos:
"Além de toda essa crise existencial que levou uns 6, 7 anos para eu superar, não podemos esquecer que meu doutorado foi em “tomada de decisões em regimes de incerteza”. Era muita ironia para mim que eu fosse considerada uma autoridade no assunto, quando na minha própria vida eu me sentia completamente despreparada para tomar decisões. Usando palavras de Ernesto Sabato (escritor e artista plástico argentino), sentia na pele que “a razão não serve para a existência”. E passava a encarar com muito ceticismo a vida científica e a questionar os sacrifícios da minha vida pessoal.
E como você largou tudo isso para se tornar dançarina de tango?
Nunca pensei em ser bailarina profissional, mas sempre amei a dança, já com 7, 8 anos ficava vendo Margot Fonteyn (bailarina inglesa) na televisão. Um ano antes de sair do Brasil tive contato com as danças de salão e comecei a dançar forró – primeiro uma noite por semana, e em pouco tempo, já eram cinco vezes por semana, uma obsessão! Na dança me sentia livre, completamente feliz e identificada, cheia de prazer. Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião de alguma forma tenta resolver isso, oferece uma teoria, mas na minha mente (que até hoje funciona mais pela lógica), eu consigo ao máximo ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nós buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, ao final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem “irrelevantes”. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso.
Muitas pessoas dizem que querem mudar de vida, mas tem medo. O que você acha que leva as pessoas a ficarem tantos anos vivendo uma vida que não lhes traz felicidade?
A incerteza dá muito medo. Deixar de lado um caminho que não é muito feliz, mas não chega a ser terrível para apostar em algo sem garantia de resultado não é fácil. A mudança é incômoda. Recomeçar do zero é árduo e acho que se no momento da decisão eu tivesse uma família, não sei se teria bancado a incerteza econômica. Se bem que eu acho que mesmo com as responsabilidades, valeria a pena. (...)
Percebi que além do medo natural e as incertezas, há uma barreira muito importante para a mudança: as crenças que criamos sobre nossa identidade. Eu fui uma criança que ia muito bem na escola, que me destacava nas ciências exatas – que por algum motivo eram muito intuitivas para mim – e acreditava que aí estava meu valor. Foi só no momento em que meu amigo demonstrou sua preocupação comigo que comecei a ver que eu era muito mais que isso. Então, acredito que para a mudança, deve-se estar atento às “hipótese implícitas” que se formam sobre nossa identidade e valor. Até hoje sigo nesse labirinto de identidade já que ao romper essas crenças, passei por um período de desprezo pelo meu lado matemático. Ainda não entendo completamente minha dualidade e não sei como integrar os dois lados em um todo harmonioso, mas continuo tentando! (...)
Quando era criança, meu pai me contou de um fotógrafo cujo hobby era fotografia; ele o considerava realmente afortunado. Eu tive a imensa sorte de conseguir o mesmo: quando não estou trabalhando, quero dançar! Que mais poderia pedir da vida?"
21/10/13, Gluck Project.
Trechos:
"Além de toda essa crise existencial que levou uns 6, 7 anos para eu superar, não podemos esquecer que meu doutorado foi em “tomada de decisões em regimes de incerteza”. Era muita ironia para mim que eu fosse considerada uma autoridade no assunto, quando na minha própria vida eu me sentia completamente despreparada para tomar decisões. Usando palavras de Ernesto Sabato (escritor e artista plástico argentino), sentia na pele que “a razão não serve para a existência”. E passava a encarar com muito ceticismo a vida científica e a questionar os sacrifícios da minha vida pessoal.
E como você largou tudo isso para se tornar dançarina de tango?
Nunca pensei em ser bailarina profissional, mas sempre amei a dança, já com 7, 8 anos ficava vendo Margot Fonteyn (bailarina inglesa) na televisão. Um ano antes de sair do Brasil tive contato com as danças de salão e comecei a dançar forró – primeiro uma noite por semana, e em pouco tempo, já eram cinco vezes por semana, uma obsessão! Na dança me sentia livre, completamente feliz e identificada, cheia de prazer. Sinto que viver, e especialmente ser consciente de nossa condição, é incrivelmente difícil, é a carga do ser humano: viver sabendo da arbitrariedade do sofrimento, de nossa impotência diante da tragédia, doença, de todos os males que afetam os seres que amamos, viver lembrando de nossa própria mortalidade. A religião de alguma forma tenta resolver isso, oferece uma teoria, mas na minha mente (que até hoje funciona mais pela lógica), eu consigo ao máximo ser agnóstica, admitindo que não posso saber se tudo tem um motivo ou é completamente aleatório. Não é uma posição muito confortante ou satisfatória. Como alternativa, alguns de nós buscamos aliviar ou resolver essas questões pela ciência, que também está limitada em suas respostas. E o tango, ao final, não pode me dar nenhuma resposta, mas me dá outra coisa: faz com que todas essas questões se tornem “irrelevantes”. O tango tem esse poder de me ancorar no presente, no prazer físico do movimento, no prazer emocional do encontro com a música e com outra pessoa. Minha crise existencial se dissolve diante disso.
Muitas pessoas dizem que querem mudar de vida, mas tem medo. O que você acha que leva as pessoas a ficarem tantos anos vivendo uma vida que não lhes traz felicidade?
A incerteza dá muito medo. Deixar de lado um caminho que não é muito feliz, mas não chega a ser terrível para apostar em algo sem garantia de resultado não é fácil. A mudança é incômoda. Recomeçar do zero é árduo e acho que se no momento da decisão eu tivesse uma família, não sei se teria bancado a incerteza econômica. Se bem que eu acho que mesmo com as responsabilidades, valeria a pena. (...)
Percebi que além do medo natural e as incertezas, há uma barreira muito importante para a mudança: as crenças que criamos sobre nossa identidade. Eu fui uma criança que ia muito bem na escola, que me destacava nas ciências exatas – que por algum motivo eram muito intuitivas para mim – e acreditava que aí estava meu valor. Foi só no momento em que meu amigo demonstrou sua preocupação comigo que comecei a ver que eu era muito mais que isso. Então, acredito que para a mudança, deve-se estar atento às “hipótese implícitas” que se formam sobre nossa identidade e valor. Até hoje sigo nesse labirinto de identidade já que ao romper essas crenças, passei por um período de desprezo pelo meu lado matemático. Ainda não entendo completamente minha dualidade e não sei como integrar os dois lados em um todo harmonioso, mas continuo tentando! (...)
Quando era criança, meu pai me contou de um fotógrafo cujo hobby era fotografia; ele o considerava realmente afortunado. Eu tive a imensa sorte de conseguir o mesmo: quando não estou trabalhando, quero dançar! Que mais poderia pedir da vida?"
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