Sunday, 1 December 2013

Felicidade e Morte


15/10/13 - Entrevista no Gluck Project

Trechos:

Você conheceu alguém que chegou ao fim da vida sem arrependimentos?

Sim. São pessoas que fizeram o melhor que puderam. Me lembro de um paciente, um homem que era ateu. A gente teve essa conversa sobre arrependimentos durante um pôr-do-sol. Eu perguntei a ele: “Você se arrepende de alguma coisa? Você faria alguma coisa diferente?” E ele disse que não. Disse: “Se eu tivesse escolhido outros caminhos, teria encontrado outros abismos, outras curvas. As decisões que eu tomei foram as melhores que podia tomar naquele momento. Eu fiz o melhor que pude. Então eu estou em paz.” E ele nunca fez terapia! Ele já nasceu pronto! Ele era ateu, então sua dimensão espiritual era em relação com a natureza e o universo. A pessoa pode se relacionar consigo mesmo, com os próximos, com o universo ou com Deus. Cada um trabalha em uma dessas dimensões. Esse paciente se relacionava com o universo. Então ele falava para mim: “Ana Paula, olha o sol. O sol está morrendo. Por que eu tenho que viver para sempre, se tudo no universo nasce, tem seu desenvolvimento e morre?” E esse homem morreu no pôr-do-sol, exatamente.

Mas isso é a minoria dos casos… É mais raro, porque as pessoas na maior parte das vezes tomam decisões que não são baseadas no melhor para elas, mas no que os outros acham que é melhor. O grande dilema do ser humano é ser amado. E quando ele toma essas decisões, se baseia na possibilidade de receber mais amor. O que as pessoas não entendem é que não é um ato de egoísmo você pensar no que é melhor para você. Você escolher algo que vai te fazer mais feliz não é maldade – pelo contrário. Imediatamente você também vai deixar mais felizes as pessoas à sua volta. E você também vai ser amado.“

Por que você acha que tanta gente se arrepende de ter trabalhado tanto?

O trabalho tem a ver com o tempo dedicado. Se você pensar, (…) nove horas no trabalho, mais oito para dormir, sobram sete horas para viver. E nessas sete você também pensa no trabalho. No fim da vida, você olha para trás e vê tudo o que se dedicou ao trabalho – talvez você tenha sido demitida aos 40 anos, ou você não gostava da profissão, ou escolheu a carreira para agradar seu pai ou sua mãe, ou ficou trabalhando para juntar patrimônio para seus filhos. No fim, você não leva nada disso. Agora, se você faz um trabalho que realiza você, que a deixe satisfeita consigo mesmo, e que traz resultados bons pra sua vida pessoal, ninguém se arrepende(…)

Para alguém que vê tão de perto o fim da vida, quais seriam suas dicas para viver bem? Seria não se preocupar?

Não tem essa de não se preocupar. Isso seria muito hedonista, né? “Ah, então vou levar a vida na flauta”, mas a vida não é uma flauta, ninguém veio a passeio. A dica não é levar nada a sério, é levar tudo a sério. Mas de maneira que, ao final, você possa dizer que fez escolhas conscientes. Não pode ficar se martirizando. Você faz uma escolha com trinta anos e aí aos cinquenta fica se lamentando: “Ai, como pude fazer aquilo”. Isso é roubar no jogo: você é uma criatura de cinquenta anos julgando uma de trinta, que não tinha noção do que podia acontecer. Isso é errado, não é honesto. Honesto é olhar para o momento em que você tomou aquela decisão e ver se você seguiu seu coração.
(…)
Sinto que as pessoas se perdem tentando seguir todas as regras que existem para viver mais e melhor… Você já fez a conta de quanto tempo se perderia se você mastigar 25 vezes, se você meditar uma hora, se você fizer atividade física? Cai na real. Que horas isso vai acontecer? Acho que a medicina é uma forma das pessoas se distraírem um pouco daquilo que realmente importa, que é viver. Mas a gente deveria usar a medicina como uma ferramenta para viver melhor. E isso não é uma receita de bolo, porque o meu “viver melhor” não é o seu. Não adianta seguir todos os conselhos. (…)

O que é importante para se despedir bem?

Eu acho que o que é mais difícil é ter pessoas ao teu lado que vão dar conta de cuidar de você nesse momento. Essa área que eu faço precisa de profissionais qualificados. Humanidade é um negócio que você desenvolve ao longo da vida. E para você estar do lado das pessoas que estão no fim da vida, você tem de ter formação e conhecimento. 

(...) O mais difícil é sempre para o paciente. Se meu pai morreu, ele se despediu da vida. Eu perdi meu pai, mas ele perdeu tudo. (...) Porque a tristeza existe, mas existe uma paz de que tudo foi feito.”

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