Porque é que hoje nenhuma revolução é possível?
De Byung-Chul Han, na Revista Punkto, em 3/9/2014
Num debate entre mim e António Negri, que ocorreu há cerca
de um ano no Berliner Schaubühne, confrontaram-se duas críticas bem distintas
do Capitalismo. Negri estava confiante com a ideia de uma resistência global ao
“Império”, ao sistema neoliberal de dominação, apresentando-se a si mesmo como
um comunista revolucionário e referindo-se a mim como um acadêmico cético.
Acreditava, enfaticamente, que a “multitude”, as massas interconectadas do
protesto e da revolução, iriam ser capazes de fazer cair o “Império”. A posição
do comunista revolucionário pareceu-me muito ingênua e afastada da realidade.
Por isso, procurei explicar a Negri porque é que hoje a revolução já não é
possível.
Porque é que o sistema de dominação neoliberal é tão
estável? Porque é que há tão pouca resistência? Porque é que toda a
resistência, quando ocorre, se desvanece tão rapidamente? Porque é que já não é
possível a revolução, apesar do crescente fosso entre ricos e pobres?
Para explicar este estado de coisas é necessária uma compreensão adequada de
como funcionam hoje o poder e a dominação.
Quem pretender
instalar um sistema de dominação deve eliminar toda a resistência e o
mesmo se aplica ao atual sistema de dominação neoliberal. Estabelecer um
novo sistema de dominação requer um poder que se impõe frequentemente
através da violência. Contudo, esse
poder não é idêntico àquele que estabiliza o sistema internamente. Como é
bem sabido, Margaret Thatcher, pioneira do neoliberalismo, tratava os
sindicatos como “inimigos internos” e combateu-os violentamente. Contudo,
não devemos confundir a intervenção violenta que impõe a agenda neoliberal com
um poder de estabilização ou manutenção do sistema.
O poder de
estabilização do sistema não é repressivo mas sedutor
O poder de estabilização da sociedade industrial e
disciplinar era repressivo. Os operários eram brutalmente explorados pelos proprietários,
o que originava atos de protesto e de resistência. Nesse momento, foi possível
que uma revolução derrubasse as relações de produção existentes. Nesse sistema
de repressão tanto os opressores como os oprimidos eram visíveis. Havia um
adversário concreto – um inimigo visível – ao qual se oferecia resistência.
O sistema de dominação neoliberal tem uma estrutura
completamente distinta. Hoje, o poder que estabiliza o sistema já não funciona
através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Já não é
visível, como no caso do regime disciplinar. Hoje, não há um adversário
concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir.
O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num
empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na
sua própria empresa. Cada um de nós
é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um
consigo próprio. Hoje, aqueles que
não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se
envergonhados. As pessoas vêem-se a
si próprias como o problema e não a sociedade.
O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua
submissão
Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano
debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente.
Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas
se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define
o atual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição
e da privação, mas procurando agradar e satisfazer. Em vez de gerar homens obedientes, esforça-se por torná-los dependentes.
Esta lógica da eficiência neoliberal aplica-se igualmente à vigilância. Nos
anos 80, para citar um exemplo, houve protestos veementes contra o censo
demográfico alemão. Até os estudantes saíram à rua.
Do ponto de vista atual, a informação solicitada no censo –
profissão, níveis de educação, distância de casa ao trabalho – parece quase
ridícula. Mas naquela altura o Estado era visto como uma instância de dominação
que retirava informação aos cidadãos contra a sua vontade. Essa época há muito
que ficou para trás. Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade
que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia
nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O
livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como
livre auto-exploração. Protesta-se
contra quê? Contra si próprio? A artista conceptual Jenny Holzer formulou o
paradoxo da actual situação: “Protect me from what I want" [“Protege-me
daquilo que quero”].
É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder
que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce
amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido
nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta
técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade
não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se
contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir.
Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade
não.
Depois da crise financeira asiática, a Coreia do Sul estava
paralisada e em choque. O FMI interveio e disponibilizou crédito. Em troca, o
governo teve que impor uma agenda neoliberal. Isto foi iminentemente
repressivo, poder impositivo – o tipo de poder que frequentemente é acompanhado
de violência e que se distingue do poder de estabilização do sistema que
procura sempre passar como liberdade.
De acordo com Naomi Klein, o estado de choque social que se
segue a catástrofes como a crise financeira na Coreia do Sul – ou a atual crise
na Grécia – oferece a oportunidade de reprogramar radicalmente a sociedade pela
força. Hoje, quase não há qualquer resistência na Coreia do Sul. Bem pelo
contrário: um consenso generalizado prevalece – assim como a depressão e o
esgotamento. A Coreia do Sul tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo. As
pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a
sociedade. A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi
substituída pela auto-agressão dirigida contra si próprio.
Hoje, não há uma multitude cooperante e conectada capaz de
se levantar numa massa global de protesto e revolução. Pelo contrário, o modo
dominante de produção baseia-se em empreendedores isolados e solitários,
alheados de si próprios. Antes as empresas costumavam competir entre si.
Contudo, dentro de cada empresa, era possível encontrar solidariedade. Hoje,
todos competem contra todos, inclusive, dentro da mesma empresa. Apesar da
competitividade aumentar a produtividade, esta destrói a solidariedade e o
sentido comum. Nenhuma massa
revolucionária pode surgir de indivíduos exaustos, depressivos e isolados.
O neoliberalismo não pode ser explicado em termos marxistas.
No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje,
mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro
nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução
excluem-se mutuamente. Assim, é um erro pensar que a Multitude poderá derrubar
o “Império parasitário” e construir uma ordem social comunista.
A economia de partilha leva à total mercantilização da vida
Qual é o estado atual do comunismo? Há hoje uma invocação
constante da noção de “partilha” [sharing] e de “comunidade”. A economia de
partilha parece substituir a economia da propriedade e da posse. Sharing is
Caring [partilhar é cuidar] é a máxima da empresa “Circler”, no mais
recente romance de Dave Egger: partilhar é curar, por assim dizer. Os passeios
que levam até à sede da empresa estão cheios de máximas como “Comunidade
Primeiro” e “Humanos trabalham aqui”. Mas o verdadeiro mote deveria ser:
“cuidar é matar”
Centros de boleias digitais, que nos transformam a todos em
taxistas, são igualmente divulgados com apelos à comunidade. Mas é um erro afirmar – como faz Jeremy
Rifkin no seu mais recente livro, The Zero Marginal Cost Society – que a economia de partilha anuncia o fim do
capitalismo inaugurando uma ordem social orientada para o comum, onde partilhar
tem mais valor que possuir. O que
acontece é precisamente o oposto: a economia de partilha leva, em último caso,
à total mercantilização da vida.
A mudança que Rifkin celebra – da posse para o acesso – não
nos liberta do capitalismo. As pessoas sem dinheiro continuam a não ter
acesso à partilha, ao sharing. Mesmo na idade do acesso, continuamos a
viver dentro daquilo que Didier Bingo chamou o “Ban-opticon”, onde aqueles sem
meios econômicos permanecem excluídos. “Airbnb” – o mercado comunitário que
faz de cada casa um hotel – fez da hospitalidade uma mercadoria, um bem de
consumo.
A ideologia da “community” [comunidade] e dos “collaborative
commons” [bens comuns colaborativos] levam à total mercantilização da
comunidade. Tornou-se impossível uma amabilidade desinteressada. Numa sociedade de valorização recíproca e
permanente, também a amizade se tornou comercializável. Tornamo-nos amáveis para obteremos melhores
avaliações.
A dura lógica do capitalismo prevalece mesmo no coração
dessa economia de partilha. Paradoxalmente, neste tão simpático “partilhar” ninguém dá nada a ninguém
voluntariamente e de graça. O capitalismo realiza-se plenamente no momento em
que vende o comunismo como mercadoria. O comunismo como mercadoria é o fim da
revolução.
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